27.10.12

do aqui-agora


 Respiro e inspiro muito profundamente.
 Aqui não é apertado. Tem espaço e um clima agradável, quente com uma brisa suave.
 Fresco.
 Estável.

 Nada aqui muda muito. Tudo aqui é seguro.

 Eu me arrumo mais uma vez na caixa de vidro onde eu mesma me tranquei. Me deito no chão e observo o ambiente lá fora. O chão é duro, quase tão duro quanto as paredes que envolvem a parte da minha mente onde eu guardo as lembranças do que era dividir a vida com alguém. Parte esta que permanece lacrada indefinidamente porque é muito mais seguro assim. Aqui tudo prima pela segurança, e eu não demorei a perceber isso.
 Nada muda muito lá fora também. Tudo é cristalino, apesar de cinza. E entediante.
 Os sentimentos sobram aqui dentro porque fingir que eles não existem só traria mais dor. Deixo-os livres aqui.
 Mais ninguém além de mim consegue vê-los ou adivinhá-los.
 Meu rosto e meu corpo formam uma expressão nula e por trás dos meus olhos tem uma parede de pedra maciça. Impenetrável. Aqui nenhuma imagem consegue ficar. As pessoas confundem isso com tristeza.
 Eu deixo confundirem. Não precisar explicar é libertador.

 Aqui dentro, no entanto, tudo é muito colorido. Todo um mundo alternativo, melhor, cheio de pessoas e criaturas fantásticas. Mundos mágicos e a liberdade, a liberdade desesperada de poder acreditar no que quiser, sempre que quiser, onde e quando quiser. As cores dos sonhos são profusas, intensas, vivas, inacreditáveis. Saltam aos olhos, como tudo por aqui.

 E embora eu não veja o sentido de viver num lugar tão lindo e mesmo assim não sorrir, é tudo meu. Preenchendo meus desejos mais egoístas, meus sonhos mais loucos, minhas ambições mais impossíveis - tudo que eu quiser. Aqui existe. É no que eu me agarro quando tudo vai mal.

 Meu coração bate lenta e calmamente. Sístole, diástole, sístole, diástole. Tudo urge ao meu redor e ele só encontra a tranquilidade aqui.
 Eu sinto cada relaxamento e cada contração como um alívio. Apesar de tudo, estou viva. É um alívio sentir a vida passar e não só assistir a isso. Sentir. Mesmo que de dentro da caixa, mesmo que só observando.
 O preço a pagar por ter tudo isso é ser só. Estar sempre só, imutavelmente só. Porque sonhar, ser ou imaginar perto dos outros te faz irrecuperavelmente louco. E incapaz de conviver em sociedade. Aprendi na prática que as pessoas não gostam nada disso.

 É daqui, enfim, que eu observo. Observo a menina de vestido florido do outro lado da rua. Observo o olhar da jovem que passa entre as estantes da biblioteca lotada. Observo o olhar cansado dos idosos nos ônibus. Observo a pressa, a urgência que tem a juventude.

 É daqui de dentro da espessa camada de vidro.

 Minha zona de conforto. Quente, aconchegante, viciante.
 Deixa estar.
 Um dia eu saio.

 Agora não.

Um comentário:

Beatriz da Matta disse...

E descobrindo na Mazza uma poeta *_*

Quem dera eu escrevesse com essa profundidade!

OBS: essa porra de blog num deixa eu comentar....