Depois de uma rápida discussão sobre araras de roupas em lojas de departamentos, minha irmã e eu resolvemos que ela seria a minha primeira (e desde já mais ilustre) convidada aqui no blog. Eis então o texto:
Eu não sou especial
Desde de que me conheço por gente, sou gorda. Era uma criança gordinha, nada exagerado, mas me lembro plenamente de ser sempre lembrada como a gordinha da sala, da rua, do grupo. Isso sempre foi normal pra mim, mesmo que por muitas vezes eu tenha me revoltado com essa condição e...comido ainda mais!
Mas não é aí que eu quero chegar. Sei que sou gorda, tenho plena consciência disso. Ninguém precisa me dizer isso, porque eu sei. Sei mesmo. Mas as pessoas insistem em soltar aquelas frases feitas MARAVILHOSAS: 'nossa, você engordou hein?' ou ainda melhor: 'você tem o rosto lindo, por que não emagrece? Se você fosse magra, ia ser linda!'.
Até então, eu já me acostumei com isso. Não a ponto de concordar com a pessoa e rir da situação, mas a ponto de apenas ignorar esse tipo de comentário.
Também me acostumei com a brincadeira de amigos, que por muitas vezes me machucaram, mesmo não fazendo por mal. Aquelas brincadeirinha de que eu não caberia em tal lugar, gordo que faz gordice ou chamando meu nome no aumentativo e com todos os 'ãos' que eles sempre acharam tão engraçados. Eu nunca achei, admito. Mas nunca impedi a brincadeira de ninguém não, apenas não correspondia.
E em meio estas aceitações de uma vida toda, eu me tornei uma pessoa mais leve - não de peso, se me permitem a piadinha - e menos encanada. Mesmo assim, ainda tem uma coisa que me frustra muito: comprar roupas em loja de departamento. Pode parecer meio idiota, e muitos podem também não entender. E não espero que todos entendam. Acho que só quem sofre dessa mal irá entender.
Só sei que é muito constrangedor ser tratada diferente nesses locais. Vendedoras te olhando com ar de superioridade e aquele sentimento de culpa - sim, culpa! - por estar em um local no qual você não faz parte. A sua imagem não se parece em nada com os inúmeros manequins espalhados por lá, e nada ali parece ter sido feito para você. E quando você finalmente acha algo legal, sente-se observada e encarada. É um processo complicado este de fazer compras. E por que? Porque aquela enorme placa preta com letras em rosa neon gritam: TAMANHO ESPECIAL.
E é ali que eu me aborreço. Por quê eu sou especial? Tenho algum tipo de deficiência? Não. Ganho créditos em compras por ser acima do meu peso? Não. ENTÃO POR QUÊ DIABOS ME ROTULAM COMO ESPECIAL?
Sou especial porque sou obrigada a olhar para aquelas roupas - em sua maioria sem corte algum ou em qualquer estampa que seja feita para alguém com menos de 50 anos - que não me representam em nada? Especial por não ser igual a todos os consumidores? Especial por não seguir padrão nenhum?
Pode sim parecer estúpido para os outros, mas para mim não é. Sou uma consumidora como outra qualquer. Com menos privilégios sim, mas comum.
Do que adianta fazer tamanhos maiores querendo desvencilhar a imagem da marca aos padrões rígidos da sociedade se ao inserir tamanhos diferentes rotula de uma forma preconceituosa algo que foi feito para fugir do preconceito?
Provavelmente não sou só eu que percebo isso. Mas muitas se calam com a conformidade mórbida de achar algo que sirva. Muitos vão me mandar ficar quieta e ir para a academia, mas a questão é: E SE EU NÃO QUISER? Eu não posso andar na rua ou fazer compras sem que me questionem por que ser quem eu sou?
Sou assim por condições de uma vida sem regras alimentares estabelecidas, mas nada que me faça diferente do resto do mundo. Eu não sou especial, e não quero ser tratada como tal. Sou gente como ele, ela e você. Sou gente gorda - o que para muitos já é um ultraje - mas sou gente. E estou farta de ser tratada diferente.
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