26.11.12

Petit

   Era um domingo preguiçoso e ele resolveu desenhar. Caía uma chuva constante e o barulho se misturava ao som da televisão. O clima era quase pacífico e a cabeça estava cheia com as formas e as cores dos desenhos. Cada traço era preciso e melífluo, a caneta deslizava calma e segura no papel tirando a forma do cérebro e imprimindo numa folha para arrancar sorrisos. Era fácil e a junto com a xícara de café tornava o ambiente quase perfeito.
    Enquanto o desenho continuava, a mente voava pra longe. Pensava no trabalho, na mãe, em outras cidades e experiências recentes. Quase fechou os olhos para definir o contorno preciso do mar e do contraste do céu. As formas retas e cinzentas vieram à cabeça e toda a beleza urbana da cidade maravilhosa. Sorriu enquanto deixava a mente vagar pela faculdade, por uma cerveja e uma piada sobre um velho que ele ouviu há algumas semanas. De repente algo o trouxe direto pro chão.
    Mãos pequenas pousaram em seu ombro e viajaram pelo esterno num abraço leve. Fechou os olhos e suspirou enquanto sentia dois pontos de calor muito próximos pressionando sua nuca. A pressão cedeu e recomeçou várias vezes, viajando da nuca para a mandíbula e de volta para a nuca, os lábios gradualmente mais exigentes e ritmados, quentes pelo toque contante. A essa altura deviam estar levemente vermelhos, mas abrir os olhos agora não era uma opção.
    No lugar onde os lábios tocavam sua pele uma onda elétrica viajava pelo seu corpo e a corrente ia ficando cada vez mais intensa. Sorriu e deixou que a familiar eletricidade que vinha daquela boca arqueasse seu pescoço para o lado, melhorando o acesso da boca pequena. Os beijos continuaram, lentos mas constantes, exterminando qualquer foco de gelo e deixando só calor por onde passavam. Devagar os lábios se partiram e a língua começou a imprimir uma dança delicada contra a superfície pulsante do pescoço.
   Os beijos continuaram até que as mãos o puxaram mais pra perto e se afundaram um pouco na pele, fazendo um gemido rouco escapar. A mordida leve que acompanhou o gesto e o suave beijo na nuca terminaram e uma massagem começou.
   Ele abriu os olhos e recomeçou a desenhar.
  Sorrindo.

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