3.6.12

do meio da rua


Já há 6 meses não te via e ainda me sentia tão mal quanto da útlima vez. Em todas as vozes havia um pouco da sua, os abraços de todos os outros ainda tinham seu cheiro e seu jeito se manifestava em cada pedestre da avenida movimentada. Quando desviei meus olhos pro relógio e sacudi minha cabeça como se você fosse um bicho em cima dela. Eram exatamente quatro horas quando vi você do outro lado da rua. Meu coração saltou, correu e foi até você, sem nem ver a moça do seu lado. A alegria de te ver era maior que meus relatórios e minhas matérias e meus trabalhos atrasados e acumulados na pressa de voltar pra casa. No meio do caminho a moça muito loira e muito arrumada te deu um beijo. E de repente tudo mudou de direção... E nada mais fazia algum sentido.
 Olhei pra cima sem esperança de te ver de novo mas quando olhei de novo lá estava você, parado, me olhando como se olha para uma criança. Meu coração também parou e desejou com tudo que podia que aquela dor exagerada fosse a morte. Você não me reconheceu. Meu corpo todo doía e meus nervos gritavam em protesto. O beijo da moça partiu alguma coisa ao meio.

 Tentei correr pra longe mas meus joelhos me avisaram da rótula quebrada. O carro havia fugido. A ambulância já vinha vindo. As pessoas me olhavam e meus olhos só conseguiam verter lágrimas quentes. Havia a dor, acima de tudo.
 Quando os paramédicos chegaram e me imobilizaram na ambulância, eu só quis gritar de pavor ao ver você indo embora. Você e a moça muito loira e muito arrumada. Eram quatro e trinta e cinco.

 Já há um ano não te vejo. Desde as quatro e trinta e cinco da tarde daquele dia. Meus trabalhos foram entregues, meus relatórios foram escritos e minha rótula, recuperada. No entanto metade de mim continua (continua?) com a moça.
Muito loira e muito arrumada.

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